Extinção

Acidentes por eletrocussão com gavião-real preocupam pesquisadores de Rondônia


Os acidentes por eletrocussão envolvendo espécimes do gavião-real estão preocupando um grupo de pesquisadores e voluntários em Rondônia que trabalham na proteção da ave. A Harpia harpyja, considerada a maior águia das Américas, já é uma espécie considerada rara de se encontrar na natureza. Ainda segundo os especialistas, a supressão florestal da Amazônia afeta diretamente na reposição desses indivíduos no bioma.

"A redução do habitat florestal utilizado pela harpia e a presença de infraestruturas dentro da área utilizada por esta espécie, provavelmente aumentam as chances de encontros homem-harpia e da harpia com as linhas e postes de transmissão de energia elétrica. Por exemplo, harpias juvenis em dispersão do ninho podem passar por áreas com linhas de transmissão e sofrerem acidentes fatais nessas estruturas, ou serem alvo de disparo de arma de fogo", explicou Helena Aguiar-Silva, bióloga membro do Projeto Harpia, que desenvolve diversas pesquisas há 15 anos com a espécie.

Os impactos ecológicos causados por tais acidentes foram relatados em um artigo publicado em setembro deste ano na revista internacional Journal of Threatened Taxa. Na nota científica, o grupo descreve o acidente de uma espécime encontrada morta em uma estrada de Alta Floresta D’Oeste (RO) e o utiliza como alerta. Segundo o próprio Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Harpia harpyja é alvo de caça e perseguição no Brasil.

"Perder um indivíduo de uma espécie rara e ameaçada de extinção impacta a sua população. Nós já observamos que este evento de eletrocussão de uma fêmea jovem causa um prejuízo para a espécie, pois essa ave poderia estar reproduzindo na natureza", complementou Almério Gusmão, professor do Centro Técnico Estadual de Educação Rural Abaitará (Centec Abaitará), em Pimenta Bueno (RO) e pesquisador da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat).

No caso de acidentes por eletrocussão, as chances de sobrevivência da ave são muito reduzidas. Os riscos aumentam principalmente porque o poste de energia está instalado na borda da floresta e, com a extração das árvores mais altas (utilizadas como poleiros pelas harpias), os postes se tornam proeminentes em relação à mata. "E com essa altura do poste, a harpia vai pousar e sofrer essa descarga elétrica. Algumas delas morrem. O óbito sempre é o principal resultado entre a maioria dos casos já relatados. O importante também é a trajetória que levou esse espécime", complementou Almério Gusmão.

Helena Aguiar-Silva explica que há medidas para reduzir as chances de coalizão e eletrocussão fatal em caso de contato. As ações amplamente utilizadas em outras regiões da Europa e dos Estados Unidos da América incluem a utilização de sinalizadores em linhas de transmissão de energia elétrica e a proteção dos cabos por um material isolante.

O gavião-real, de acordo com Carlos Tuyama, voluntário do projeto em Rondônia, é uma ave territorialista e, usualmente, um casal da espécie requer uma área de pelo menos 50 km² de floresta para caça e reprodução, que ocorre de três em três anos. "90% das harpias que tem no mundo estão no bioma amazônico brasileiro, principalmente norte do Mato Grosso e em Rondônia. Está entre os três maiores predadores aéreos do mundo e é uma espécie vulnerável. Em Rondônia, temos uma situação bastante preocupante, pois houve grande perda da cobertura florestal original. Fazemos o acompanhamento não só dos ninhos, mas de todas as ocorrências. O interesse é saber como eles estão desaparecendo", explicou Tuyama.

Por ser uma espécie predadora e estar situada no topo da cadeia alimentar, a harpia, de acordo com Almério, consegue controlar a fauna de folívoros e frugívoros, como por exemplo os primatas que se alimentam de folhas e frutos. A falta desse controle pode causar o aumento em sua população e, consequentemente, o ataque às lavouras dos moradores da zona rural por esses animais. "Ela é uma espécie muito importante no equilíbrio ecológico. A harpia realiza o controle natural das populações de herbívoros silvestres. Sua presença em uma área de floresta próximo a lavouras pode levar à diminuição de ataques de primatas", disse o pesquisador.

A harpia está na lista mundial de espécies ameaçadas de extinção como “quase Ameaçada”. No Brasil, de acordo com o Livro Vermelho da Fauna Brasileira do ICMBio, de 2018, a Harpia harpyja está classificada como vulnerável à extinção e criticamente em perigo nos estados da Mata Atlântica. Mesmo com a situação menos crítica na Amazônia, há estimativa de que o declínio populacional, conforme o ICMBio, seja de no mínimo 30% em 56 anos. Espécimes da harpia também podem ser encontradas, além da Amazônia e da Mata Atlântica, no Cerrado.