Política

A ciência não se cala


Na terça-feira, 21 de julho, o projeto Ecoarentena realizou um bate-papo com Ricardo Galvão, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. A conversa abordou diversas questões, como o atrito entre Galvão e o presidente Jair Bolsonaro em julho do ano passado, a divulgação científica para a população jovem, investimentos na área da ciência e a luta contra o negacionismo.

Ricardo Magno Osório Galvão é um físico e engenheiro brasileiro, professor titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo. Além de membro da Academia Brasileira de Ciências, foi diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Graduado em Engenharia de Telecomunicações, obteve mestrado em Engenharia Elétrica e um doutorado em Física de Plasmas pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

A conversa começou abordando os cortes ocorridos na área científica nos últimos anos, e se os mesmos seriam uma forma de censura menos explícita. Assim, o professor explica que existem os mais diversos motivos para a realização desses cortes, muitos deles impulsionados, inclusive, por razões econômicas, porém o governo nunca se pronunciou abertamente contra a ciência.

Ricardo Galvão falou, também, de questões polêmicas da gestão feita pelo governo Dilma acerca do programa Ciências sem Fronteiras, pelo fato de que a ex-presidente teria retirado recursos do CNPQ e da CAPES para a realização do projeto. Assim, comenta que, muitas vezes, ocorrem problemas simplesmente de gestão, de não se saber onde aplicar os recursos devidamente.

“De uma coisa não podemos culpar o governo Bolsonaro, ele nunca mentiu, ele sempre disse que era contra a política ambiental”

O físico respondeu a algumas falas polêmicas e negacionistas, especialmente acerca do aquecimento global, de alguns membros do alto escalão do governo, como ministro Ernesto Araujo, e de pessoas ligadas ao Presidente Jair Bolsonaro, como o próprio filho, Carlos. Falou também sobre negacionismo em governos ao redor do mundo, como o caso do de Donald Trump, que revogou mais de 100 instrumentos de controle ambiental. Finalizou com a importância das pessoas não votarem em candidatos sem educação científica sólida ou que se opõem abertamente à ciência.

“Se nós votamos e colocamos ele lá, a culpa é nossa”

Ricardo Galvão explanou sua visão sobre a gestão do atual Ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes. Falou que a comunidade científica via com bons olhos a indicação do astronauta para a pasta, pois o mesmo parecia querer manter um canal aberto de comunicação com especialistas, porém essa esperança se apagou na medida que perceberam que o Marcos Pontes ficou “refém da hierarquia militar”, fato perceptível em diversos casos de omissão do ministro frente a atos completamente negacionistas por parte do próprio governo. Terminou dizendo que o atual ministro está realizando uma péssima gestão na pasta. “Ele era muito ingênuo”, afirmou o ex-diretor.

Ricardo comentou um pouco, também, sobre a relação entre as ciências e as redes sociais, abordando principalmente a divulgação científica. O professor criticou a limitação da internet na questão de conteúdo. Assim, embora ocorresse uma maior democratização do acesso ao conhecimento, esse acesso ainda é muito limitado e superficial. Galvão explica, também, que muitas coisas na ciência não podem ser respondidas rapidamente sem muita profundidade e que muitos dos jovens hoje em dia não teriam a paciência em ver com mais cuidado, porque, segundo ele, “o lago ficou muito mais amplo, mas muito menos profundo"

Galvão fala sobre a Floresta Amazônica e a sua influência para conter o aquecimento global. Além disso, o ex-diretor do INPE fala sobre a importância da floresta para o agronegócio brasileiro e as prováveis interferências econômicas que o país pode sofrer na exportação por decorrência do descaso com o meio ambiente.

Numa das últimas perguntas, ele comenta sobre a grande importância que possui a pesquisa de base para o desenvolvimento científico no país, inclusive relembrando que o Brasil somente se tornou um grande exportador no agronegócio por decorrência da pesquisa de base. “Nós só conseguimos produzir se tem uma base científica muito sólida, muito ampla, pesquisando inclusive ciência básica. As vezes sem aplicação imediata, mas, se não tiver esses cientistas, quando vem um problema prático, a gente não consegue resolver”.

Quando perguntado sobre as suas esperanças para o futuro da ciência contra o negacionismo, o professor responde que esse movimento sempre esteve presente na história, seja nas margens da sociedade, seja em posições de poder. Assim, Ricardo Galvão conta diversos casos em que a ciência triunfou diante do negacionismo e a conversa termina com discursos esperançosos para um futuro melhor.